Morador que socorreu três pessoas em tragédia no morro em Guarujá, desabafa: ‘tive que escolher quem salvar’

Olavo participou do resgate de três moradores de Guarujá (SP) — Foto: Glauco Araujo/ G1

“Tive que escolher quem salvar. É uma sensação de impotência, parece mentira”, desabafa o desempregado Olavo Rendeiro Tavares, de 33 anos, após socorrer três pessoas de lamas e escombros no morro Barreiro João, em Guarujá, litoral de São Paulo.

Ele mora com a mãe em uma casa de alvenaria composta por quarto, sala, cozinha e banheiro, na Rua da Bica, que dá acesso ao local do deslizamento. Repleto de imagens e símbolos religiosos, Tavares parece ainda não dado conta da tragédia que sentiu passar entre os dedos.

Desempregado, ele costumava conversar bastante com muitos dos que agora estão soterrados. Perguntado se conhecia algum morador que tinha perdido alguém no deslizamento ele respondeu: “aqui todos perdemos, sejam parentes, amigos ou vizinhos.”

Mesmo com casa humilde, ele deixou a porta aberta durante toda terça-feira (3) para quem quisesse entrar e descansar do esforço de tentar resgatar sobreviventes ou corpos de vítimas.

Acordado desde a manhã de segunda-feira (2), ele se preparava para dormir quando escutou uma chuva muito forte, e decidiu sair para ver se alguém precisava de ajuda, quando escutou um forte estrondo.

Desempregado, Olavo costumava conversar com vizinhos que ficara soterrados — Foto: Glauco Araujo/ G1
Desempregado, Olavo costumava conversar com vizinhos que ficara soterrados — Foto: Glauco Araujo/ G1

“Duas meninas correram falando que o barraco desabou. A primeira cena que eu vi foi de uma mãe chorando em frente ao barraco que desabou por causa de seus filhos”, disse ele, que não conseguia evitar o olhar distante e atônito.

Entrar no local e começar a cavar com as mãos foi a reação do rapaz, que conseguiu resgatar a filha de uma mulher. Ela foi a primeira pessoa que o rapaz salvou depois de agir rápido em meio à gritaria. Para ele, a ação foi “instinto”.

“Nesse momento os gritos começaram, muito fortes, mas depois foram parando e o silêncio tomou conta. Veio aquela escuridão e só desespero”, diz.

Ele explica que no momento observava pessoas pedindo socorro e perdendo parentes e amigos. O jovem conta que precisar escolher quem salvar foi a pior sensação depois da tragédia no local. Ele socorreu três moradores, a criança na primeira casa que desabou, um rapaz que tinha os braços presos nos escombros e uma pessoa de uma outra família.

A mãe dele, a dona-de-casa Marcília Rendeiro Conceição Tavares, 63 anos, ainda encontrou forças para deixar o filho em casa e ajudar vizinhos desabrigados que foram acolhidos na Escola Municipal professora Dirce Valério Grácia.

“Meu filho foi de uma coragem muito grande, mas quando cair a ficha sobre o que aconteceu e o que ele fez vai chorar como gente grande”, disse ela, orgulhosa.


Arte mostra deslizamentos, mortes e volume da chuva na Baixada Santista — Foto: Cido Gonçalves/G1

Fonte: https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2